Fragmentos da Paixão

I
Certo dia, no meio do caminho
que me arrastava os pés no Templo alado,
deparei junto a mim o burburinho


de um turbilhão de seres extasiado
ante a férrea, magnética presença
de alta torre de vidro. Fascinado


pelo esplendor da aparição imensa
— sombrio resplandor de negra opala —
também eu, que ao cantochão da descrença


me embalava, já cansado, já farto
de
de arrastar pelo Planeta os andrajos
de minha solidão, entrei cantando


no torvelim das almas que em ciranda,
ébrias, descendo, trêmulas, em bando,
iam o adro da Torre demandando.


Ali paramos ante os negros vidros.
Abriram-se-nos portas densamente aliciantes.
Envolvia-nos algo como um olhar pegajoso


de hipnose. Dançando ainda, entramos
nos amplos elevadores. Apertamos
os botões para o último andar. E lentamente


fomos descendo.


II
Apagaram-se os sóis. Ficamos sabendo,
sem que voz o dissesse, que a alegria
era infração à Norma. Mas autônoma,
senhora de nossos corpos, prosseguia-se a dança,
e era música o contínuo terror, o temor expectante em
que nos fizéramos,
regente atra Presença,
opressão de pressentida Espreita rapinante no escuro,
surda Vibração de ala implume.
Lá fora o claro dia era um sonho remoto.
Nas trevas, no pavor, Suas invisíveis milícias,
Seus ocultos exércitos
espancavam a multidão em fuga para Nenhures.
Esquecidos na entrada os amuletos!
Total desamparo! Começava
o sem-sentido, o sem-nexo,
o mergulho real.


Eu me apagava.


III
E de repente estava só de novo,
e descia. Meus andrajos de púrpura cintilavam
torvamente. E descia.
Entre seis paredes de ar pesado,
corte vertical na rocha,
solitário descia.
Os muros me estreitavam. Eu me espessava.
E descia.


IV
Oh solidão da vida!
Oh solidão da morte!
Oh solidão amarga!


Nas paredes da rocha em descendente fuga,
vou escandindo
às pedrarias abissais, de faiscações inversas
— invertida luz, caliginosa
luz, antiluz
que só o negror desvela —,
as sílabas terríveis
do terrível grafito.


Oh! Que esperança para a humana raça
não é por estes subterrâneos astros!


V
Na Planície sinistra
cuja monotonia apenas quebra
um torvo rio, de mim mesmo apeio-me.
A atra, oculta Presença
comigo se confunde.
E solene olho em torno os meus domínios.
Glebas de solidão.
Províncias de ódio.
Sesmarias de escuro.
Céus tombados.
Sombra. Medo. Pavor. Angústia. Inferno.
E em meu Domínio eis-me senhor escravo.


Aniquila-me, ó Deus! Antes o Nada
que a privação do Sonho e da Esperança!


VI
E as falsas ascensões!... Elevadores que parecem subir
mas não chegam, não se abrem, ou sobem no vazio,
ou param ameaçadores, ou se escancaram sobre estruturas
instáveis, e despencam para um poço que tarda,
para um fim que não vem, que não vem, que não vem!


VII
Mas num relâmpago,
fugitiva fração do escoar da areia,
descuido do Diabo, após milênios,
de milênios de abismo,
de um infinito negar do clarão, da centelha,
eis que, de abscônditas
nebulosas em flor desabrochada estrela,
estrela de beleza, do mistério
de ser o homem uma luz que tenta brilhar,
a Tua Face, ó Deus, lúcida Se revela!


Já não me desespera,
vislumbrado o Teu sol, Senhor, se agora,
em vez da redenção, ainda me espera
o surdo recomeça
da negra eternidade.


Daqui, do mais profundo deste inferno,
fadado ao Teu Amor,
sonho-te, ó Deus, essência cristalina.
E sei que alfim, ao fim da Eternidade,
ascendo a Ti, ascendo a Ti, Senhor!

Oração

A Casa de meu Pai tem muitas moradas.
O universo é meu lar.
Não conheço fronteiras.


Pequeno verme num pomar de estrelas,
deu-me o pai infinitas vidas
para em todas ardê-las.


No seio de meu Pai estou, mesmo na queda.
Sem desespero encaro
minha pobre verdade.


E sei, por este mesmo anseio de alto,
que — além da eternidade —
me espera a eternidade.

Música

Sombra de Deus, modulações do Nada,
que os anjos colhem do chão, com reverência.
O pó que fecundaste infiltra-se nas fendas
do Cosmo, pólen de ouro
em asas de invisíveis borboletas.


Louvamos-te, Senhor: o rastro de tua sombra
desce e ilumina as nossas trevas.

O Aleijadinho

Entre andaimes, na sombra, sorrateira
sombra ao punho disforme ata o instrumento.
E faz tremer a treva: Anjo violento,
fere a pedra-sabão, rasga a madeira.


E que fúria o incendeia!
Golpeia a massa inerte e se golpeia;
e golpe a golpe essa matéria calma
agita de sua alma!


Com tal rigor trabalha
e flama tal que bruta natureza
já se não via ao termo da batalha,
senão — livres — as formas da Beleza.


Entre andaimes, na sombra, o negro vulto
dupla obra fazia:
uma — a estátua a emergir como dum sopro,
e outra — que ninguém via.


Que, enquanto o cego escopro
lavra a dúctil matéria, outra mão, fria,
outro cinzel oculto,
Lavrava a carne ardente e a consumia.

Balões

Por que é triste a beleza?


O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.


É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.


Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.


É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.

Soneto sem despedida



Para Waldemar Lopes




Buscas da infância o inexorável pomo,
pinta-lo em cores de memória, abstrato
e belo; mas, melhor que nesse cromo,
trazes no coração seu cerne, intato.


O que ganhaste em Tempo e em Ritmo exato,
dize-lo perda e no-lo dás em Nomo.
E, agora que te vais de nosso trato,
tampouco ir-te-ás quanto imaginas. Como,


da noite, a fugitiva claridade
solar dissolve em luz os tons soturnos –
permanece entre nós tua alma antiga


na dimensão do Sonho sem idade;
e, em teu Reino de pássaros noturnos,
tua presença matinal e amiga.

Poeminha Súbito

Mas que sabemos nós de toda essência?
Do beijo que se foi fica um perfume;
do que não foi, também.
O beijo estava em nós antes do beijo!
Somos o que já éramos? Terrível
o futuro.

Nox

É teu cone que se desloca lento e solene
sobre a esfera abrasada:


telescópio que a Terra aponta aos astros.
Contrária noite cúmplice:
sem teu não de negrume à luz radiante,
que saberíamos de estrelas?